Os Croods

É uma característica da Dreamworks Animation usar de ferramentas da narrativa pra aproximar o público, de adultos e crianças, do seu produto final. Normalmente, essas ferramentas vêm na forma de referências à cultura pop, inserida em suas animações de espaço diegético não contemporâneo – Shrek e Kung Fu Panda são bons exemplos.
Os Croods segue um caminho diferente. Ao invés das referências, entram analogias para facilitar essa aproximação.

Na trama, que em uma ótima sacada estabelece seus personagens através de desenhos rupestres (expressão artística pré-história que já foi comparada até mesmo com o cinema pelo pesquisador francês Marc Azéma), uma família de homens das cavernas passa seus dias sobrevivendo. Grug, o pai superprotetor lidera sua casa em divertidas caçadas durante o dia, garantindo a refeição, para depois se esconderem em uma úmida e escura caverna, quando o sol se põe. Desta forma, ele mantém sua família segura dos perigos que o mundo lá fora oferece. Tudo vai bem até que a filha mais velha Eep, cansada das regras estabelecidas pelo pai, resolve sair de fininho à noite, onde conhece o jovem vanguardista Guy. Nem é preciso dizer que os dois irão se apaixonar.

A primeira analogia é estabelecida aí. A da rebeldia adolescente. Grug não sabe como lidar com sua filha. Suas histórias noturnas que antes a fascinavam, agora não tem mais o mesmo apelo e a chegada de Guy, o primeiro amor, o assusta mais do que todos os perigos que ele enfrenta ao longo do filme. A medida em que a animação avança, novas analogias são reveladas: a substituição do velho pelo novo – os métodos de sobrevivência de Grug se tornam obsoletos, se comparado às ideias modernas de Guy, que vão do descobrimento do fogo à confecção de sapatos; e a mais explícita, que irá chamar mais a atenção dos adultos, que é a semelhança com a alegoria da caverna de Platão – metáfora criada para exemplificar a condição humana perante o mundo, no que diz respeito ao conhecimento e em como um individuo deixa sua “caverna”, superando a ignorância. Eep, como na metáfora, ao deixar sua caverna têm seus olhos abertos para um mundo totalmente novo. “O mundo das idéias” de Guy.

Todas essas analogias enriquecem o filme e de fato aproximam o espectador milhares de anos dos personagens, rendendo boas cenas. O visual também é bacana, destaque para os varios tipos de animais e a paisagem exótica (que em certos momentos, me lembrou Pandora, o planeta-floresta do filme Avatar). Mas infelizmente os elogios param aí.

Se tratando de esmero técnico e narrativo, a DreamWorks ainda tem muito o que aprender com a rival Pixar. Falta a seriedade de um “Wall-E” e o coração de um “Up – Altas Aventuras” para que a empresa de Steven Spielberg realize uma animação realmente memorável. Os personagens, apesar de carismáticos, não são o suficiente para segurar o texto. O mesmo pode se dizer das cenas de ação e do 3D, que não trás nada de novo – salvo em algumas cenas, como no belíssimo encontro de Eep, Guy e a fogueira. O fato da distribuição do filme pelo país ser feita em sua maioria em cópias dubladas em português também prejudica a animação. Não que os dubladores brasileiros não deem conta do recado, mas não poder ouvir as vozes de atores do calibre de Nicolas Cage, Emma Stone, Ryan Reinolds e Katherine Keener é um verdadeiro desalento.

Enfim, Os Croods é uma animação divertida, programa certo para toda a família. Mas diferente dos desenhos rupestres, que sobreviveram ao tempo, esta animação deve cair no esquecimento em breve.

5/10

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